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por
Connell O'Donovan
(Brasil Porto Alegre, 1980-1982)
Em 1980, apenas uns pocos meses antes de sair
para a minha missão no Rio Grande Do Sul,
Brasil, eu era dançarino e cantor em duas peças
musicais grandes, como parte da celebração do
anniversario de 150 anos da Igreja Mórmon na
cidade de Salt Lake. “Vale Prometido” e “Dentro
desses Muros” eram musicais sobre a busca Mórmon
por uma “Sião” dos ultimos-dias — um lugar de
paz para “os puros de coração”, onde os Santos
poderiam morar em segurança. Durante aquele
verão mágico de 1980, uns 100,000 Mórmons e
turistas em Utah me viram nas duas peças,
enquanto eu bailei e cantei para aquela terra
prometida. A experiencia foi incrível para mim.
O pessoal nas peças era bem agradável e eu
abraçei a nossa mensagem sobre Sião com tudo meu
coração. Antes de cada apresentação, o pessoal
reunia-se numa sala para oferecer orações de
gratidão pelo privilegio de compartilhar cantos
de redenção em Sião com tanta gente de todas as
partes do mundo. Eu precisei acreditar
desesperadamente que eu tivesse econtrado aquela
Sião ilusória. Minha própria vida tempestosa
como um profundamentedesanimado, frequentemente-suicida,
jovem SUD Gay me deixou faminto por um espaço de
tranquilidade e estabilidade. Em minha
simplicidade, não tinha ideia nenhuma das
agonias eu sofreria por causa desta igreja
durante a proxima década, nem quão profundamente
a falência da igreja em fornecer a Sião
prometida influenciaria a restante de minha
vida.
Também naquele verão de 1980, eu estava
completando um projeto de pesquisa através do
Departmento Histórico SUD, sobre “Os Negros e o
Sacerdócio”. Durante a pesquisa, eu tive o
privilégio de ter nas mãos o manuscrito
autobiográfico de Jane Elizabeth Manning James,
uma negra que foi convertida ao Mormonismo no
estado de Connecticut em 1842, e um ano mais
tarde andou a pé descalça desde Nova Yorque até
Nauvoo, Illinois, a sede da igreja naquela epoca.
Ao chegar em Nauvoo, ela encontrou a profeta
Joseph Smith, que abraçou-a e disse, resumindo
uma passagem do livro do Apocalipse 7:17, “Seja
bem vinda a Sião, Jane! Nós limpamos toda
lágrima aqui!” O relato dela — e especialmente
as palavras de Joseph a ela — me aqueceram na
alma! Como Jane James, eu era um membro
marginalizado da sociedade. Como Jane, no fundo
da alma eu busquei aquele lugar de refúgio
seguro, aquele espaçao certo de asilo onde eu
poderia ser curado and ter todas as lágrimas
enxutas. Como Jane acreditou, nenhum valor seria
alto demais por aquele lugar.
Quando eu fui ao Brasil para servir como
missionário, eu recontei a história de Jane
muitas vezes ás congregações locais
(especialmente ao dar as boas vindas aos membros
novos), mas eu sempre terminei aí, com Jane no
abraço de Joseph, tendo as lágrimas secadas em
Sião.
Mas isso não é tudo do relato dela. Minha
propria necessidade de encontrar refúgio no
Mórmonismo me deixou cego a certos fatos
desagradáveis sobre a vida de Jane. Por exemplo,
a razão que Jane andou a pé até Nauvoo foi por
que os Mórmons brancos não a dariam uma carroça,
nem a ajudariam a pagar sua passagem de trem e
barco. E quando ela chegou em “Nauvoo a Bela”,
aquela “Sião no rio Mississippi”, ela foi ou
rejeitada ou evadida pelos Santos brancos.
Finalmente uma pessoa encaminhou-a á casa de
Joseph Smith. Ao conhecer o profeta finalmente,
Joseph empregou Jane como criada de casa (quase
escrava), e quando Smith foi morto em 1844,
Brigham Young então empregou-a como sua criada
também. A despeito de seu serviço fiel á igreja
e aos presidentes ricos, ela viveu a maior parte
de sua vida em pobreza abjeta. Ela chegou na
nova Sião de Utah no meio dos Santos pioneiros
em Setembro de 1847, a primera negra livre no
território, somente para descobrir que a
escravidão já era praticada lá. Até mesmo o
Apóstolo Mórmon Charles C. Rich possuiu negros
cativos em Utah, o que deve ser sido uma prova
grande de sua fé (como foi da minha quando eu o
descubrí).
Muitos anos antes da morte de Jane, ela começou
a esrever cartas aos líderes Mórmons (inclusive
apóstolos e presidentes), implorando-os a deixá-la
entrar no templo de Salt Lake para ser selada a
Joseph e Emma Smith como sua filha adotiva; Jane
contou que Emma Smith pediu lhe pessoalmente em
Nauvoo, mas Jane demorou a responder, e logo
depois Joseph foi assassinado. Apesar de sua
forte fé na religião SUD, pois os homens de
sangue africano eram vedado possuir o sacerdócio
Mórmon naquele tempo, a Jane James e todos os
negros eram negado entrada nos templos, uma
lembrança dolorosa de seu estado inferior na
hierarquia eclesiástica Mórmon — na verdade a
memsa situação de qualquer criança Mórmon de
apenas oito anos.
Mas Jane James era persistente na petição de ser
selada á familia Smith. E finalmente, na
primavera de 1894, ela recebeu notícias que
seria selada a Joseph Smith e sua familia no
templo de Salt Lake no dia 18 de Maio. Porém,
mais uma vez, lhe foi negada a entrada na “casa
do Senhor”. Ao invés, líderes eclesiásticos
tinham providenciado uma branca (Bathsheba W.
Smith) para representar a Jane James, porque a
presença física mera dessa mulher preta, forte,
e fiel difamaria a santidade do templo
recentemente terminado.
Em seguida, a acrescentar insulto a injúria, em
vez de ser selada a Joseph Smith como uma filha,
como ela esperou, Jane foi selada pela subsituta
a Joseph como sua “Serva” eterna (a única vez na
história de Mórmonismo que este tipo de
cerimônia foi realizada entre dono e criado). As
palavras recitadas nesta cerimônia eram que Jane
seria “ligada como Serva para a eternidade ao
profeta Joseph Smith e desta forma ser ligada a
sua familia e ser obediente a ele em todas as
coisas no Senhor como Serva fiel”. Em essência,
uma escrava eterna, sentenciada a servir um dono
branco por toda a eternidade. Não derrotada por
este gesto humiliante, ela continuou exigir aos
líderes SUD sua permissão para entrar no templo,
até sua morte em 1908, á idade de 95 anos.
Quando eu leio as petições sinceras mas inúteis
aos líderes eclesiásticos, eu sei que Sião não
tinha secada suas lágrimas como prometido, mas
aumentou-as em magnitude. Sião não podia cumprir
sua promessa a nós dois, mas de fato piorou a
ferida; os que prometeram e professaram Sião
amarram-nos com as cadeias de injustíça e depois
fazem um desfile de nosso cativeiro.
Onde ficava Sião para essa bela, perservarante,
e fiel mulher?
* * *
Recebi uma chamada uma noite em Maio de 2003 de
um amigo em Salt Lake me informando que meu
“amigo de email” morreu a Terça-Feira anterior
em Salt Lake. Este amiguinho darei-lhe o apelido
de “Daniel”. Daniel teve pneumonia e depois de
sair do hospital, ele se dopou demais com anti-depressivos.
Sua autopsia indica que morreu de pneumonia, mas
quem sabe a verdade?
A mãe de Daniel é psicoterapeuta e se dedica a
aplicar “terapia corretiva” com Gays e Lésbicas
Mormons. O pai dele é um grande psicôlogo Mórmon
que dirigiu o “Instituto da Moral e do
Comportamento Humano” na Universidade de Brigham
Young, durante os anos 70s. O objetivo principal
do Instituto foi produzir um livro profano e
anti-Gay que explicaria todas as razões por que
homossexualismo é doentio e errado. Felizmente,
depois de gastar uns $150,000 dos fundos da
igreja para produzir este livro, o Instituto da
Moral faliu e o pai de Daniel foi tirado de sua
posição porque o Instituto não podia atingir as
metas com qualquer credibilidade acadêmica.
Em 1992, eu publiquei uma história de
homossexualismo no Mórmonismo, revelando pela
primera vez o papel ofensivo que o pai de Daniel
desempenho no Instituto da Moral. Quando Daniel
leu meu artigo uns quatro meses antes de sua
morte, ele me-enviou um email, e começamos uma
correspondençia bem agradavel.
Compreensivelmente, ele ficou furioso ao
descobrir os atos do pai, que resoltou num
confronto antipático entre os dois. Daí seus
pais partiram a fim de servirem como
missionários na California, e logo depois de sua
partida, Daniel investigou no arquivo privado do
pai. Ele achou mais evidéncia escrita,
implicando o pai nesses negóçios anti-éticos, o
que exaçerbava seu mau relacionamento. Em
seguida, Daniel me escreveu uma carta cheia de
tristeza e angústia. Me pediu por apoio e
conselhos, o que fiz com minha melhor capacidade.
Daniel era um cara amigável, cheio de vida,
doce, e com tantas possibilidades. Talvez a
morte dele tenha sido um acidente, mas na
verdade eu sinto que o desespero e a raiva dele
contra as crenças e os atos dos pais e da
cultura homofóbica SUD eram demais para sua alma
sensitiva, como acontece com tantos Gays SUDs.
Onde ficava a Sião prometida para este jovem
belo e mágico? Porque suas lágrimas não eram
enxutas pelos Santos?
* * *
No ano 1999, eu andava pelo distrito de “Castro”
em San Francisco, California, a sua notável
vezinha “Vitoriana” povoada por Gays e comércios
Gays (um tipo de Sião para nós). Um mendigo
delirante andava gritando coisas cáusticas e
homofóbicas aos Gays e Lesbicas quem passavam
naquele linda tarde de Sábado. Eu fique nauseado
pelas palavras feias. De repente eu tive o que
somente posso chamar de um sentimento místico de
poder incrível dentro de mim, e sem nem pensar
do que eu falaria ou o que faria, aproximei-me e
gritei na cara dele com toda minha força, “NÃO
SABEIS QUE SOMOS ANJOS ENTRE VÓS?!”
Evidentemente as palavras penetraram-lhe, porque
por um breve momento, este homem se-tornou
completemente lúcido. Humildemente ele pediu meu
perdão, juntou suas posses pocas, e partiu,
voltando-se para me olhar, como se eu pudesse
fazer cair relâmpagos dos ceus, ou transforma-lo
numa estátua de sal.
Não sei onde vieram minhas palavras, mas desde
aquele dia eu as tenho contemplado regularmente,
e cheguei as várias conclusões interessantes,
apenas uma compartilharei agora.
Exatamente como os anjos mandados a relatar a
Deus sobre as açoes inóspitas de Sodoma e
Gomorra, eu creio firmemente que, numa distorção
de destino, nós, os Viados, somos de fato anjos
aqui prá provar a hospitalidade das “cidades do
planície”. Para provar como o mundo, com seus
governos, políticas, e religiões, trata-nos. De
minha própria experiência (e não contando as
histórias de tantos Viados que me antecederam,
esmagados pelo heterosexismo e homofóbia
persistentes) eu tenho que relatar que a fé
Mórmon descuida catastróficamente na
responsibilidade de amar os não-amados, de ligar
as feridas dos quebrados, de emancipar os
cativos, de alimentar nossas almas famintas, de
estender a tenda de Sião sobre nossos ombros
trêmulos.
Embora seja uma religião baseada na restauração
angélica, o Mórmonismo não tem capacidade (nem
vontade) de ver que “hospeda anjos" em seu
próprio médio. Em vez de abraçar-nos e aos dons
maravilhosos que trazemos ao Banquete, os
líderes Mórmons caçam-nos, e depois castigam-nos,
excomungam-nos, e nos exilam aos ermos terríveis
de Sodoma. Mas, de alguma maneira, das cinzas de
nosso dor, eu sei que podemos arar este chão
renunciado com nossa paixão, podemos semeá-lo
com as sementes de nossos contos, irrigá-lo com
nossas lágrimas e nosso proprio sangue, si for
necessário. Podemos fazer os ermos desertos de
Sodoma florescer com rosas aromáticas de cada
matiz do arcoiris, vestindo e guardando os
jardins de amor, beleza, harmonia, e delícias!
Enquanto eu reflito sobre minha busca por Sião (um
dos pocos pontos de Mórmonismo que ainda
observo), minha conclusão mais certa é que Sião
fica somente dentro da estaca de nossos próprios
corações. Portanto, continue a contar seus
contos e cantar suas canções de redenção, de
libertação. Ame a si próprio ferozmente,
orgulhosamente, com alegria. Ache um círculo de
pessoas que o amará ferozmente, orgulosamente,
com alegria, e tornem-se uma comunidade de
amantes no Jardim. Eu sou abencoado demais, pois
aqui em Santa Cruz, California, eu achei uma
comunidade mágica de almas belas, vibrantes, e
saudáveis, quem alimenta-me além de meus sonhos.
Diferente dos Santos dos Últimos-Dias, o círculo
de amigos (minha “família” bem amada no sentido
mais profundo da palavra) jamais
prometeu enxugar as minhas lágrimas de tristeza.
Simplesmente o fizeram.
Anjos de verdade.
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